terça-feira, 3 de março de 2009

Antes do Bob chegar (ou o nosso quase primeiro filho)

Pouca gente sabe disso, mas antes do Bob chegar nós quase adotamos outro menino. Nem estávamos habilitados ainda, e a ansiedade era maior do que tudo e do que a nossa capacidade de raciocinar. Um belo dia, feriado, 1 de maio, eu estava no cinema e recebo o telefonema de uma amiga. "Olha tenho uma conhecida que tem conhecidos em um hospital público e ela acaba de avisar que tem um bebê que será entregue para a adoção".

Mas como assim? Basta ir la e buscar?


Nós mal tínhamos dado entrada na papelada na vara da adoção, nem sequer tínhamos passado pela nossa gravidez afetiva. 


Era cedo. Era muito cedo.


Mas quem disse que alguém me convenceria disso naquele momento??? Morta de medo, tremendo da cabeça aos pés, la fomos nós, eu, meu marido, minha irmã Danda e uma amiga para um hospital na Zona Norte do Rio. Para não levantar suspeitas, tínhamos que nos anunciar como amigos da mãe, que vinham visitar o bebê.

Foi horrível!!! Me senti suja, imunda, invadindo aquela família, pegando o que não era meu. Como assim eu tinha que mentir para ir la buscar o meu filho? Esse definitivamente não era o meu sonho... queria fazer algo com um pouco mais de tranquilidade e aquele modelo de adoção era esquisito demais para o meu gosto. Se eu tivesse ido em frente, lógico que pediria a guarda e a adoção do bebê e faria tudo certinho pela Vara da Infância. Mas, de qualquer maneira, essa etapa anterior — a conversa com a mãe biológica no hospital — era meio no escuro mesmo. Poucas são as que têm peito para isso. Aqueles primeiros momentos ali na informalidade me deixaram muito assustada. Eu precisava de ar, não estava mais raciocinando direito.

Fiz um milhão de perguntas sobre a saúde da criança, a gravidez, o pai etc. As respostas me deixavam mais nervosa e apavorada ainda: ela não fez pre-natal porque não queria que ninguém soubesse de sua gravidez, principalmente para o pai biológico não desconfiar. Já se formou um pesadelo complicado na minha cabeça sobre esse pai descobrindo a "traição" e vindo armado buscar o meu filho (na minha fantasia, ele era o chefe do tráfico da favela, daí o grande medo dela).

Eu só conseguia ver coisas negativas daquele encontro. Sequer conseguia pensar na criança quando cheguei em casa, só lembrava da jovem mãe e da avó loucas para se desfazerem daquele problema....

Após uma noite inteira de angústia e pranto na nossa casa, no dia seguinte nós declinamos de tudo. Pedi a uma pessoa para ir ate la, pagar a passagem de ônibus dela, ver se ela precisava de alguma coisa e.... vazar!

E porque estou postando isso hoje?

Porque achei, por acaso, a carta que escrevi para essa mãe biológica que conheci tão pouco, mas que me mostrou que, seja para dar, seja para receber, a gente deve estar minimamente preparada!

Segue a cartinha descoberta hoje, mais de 5 anos depois. Tenho certeza que o menino está ótimo, em alguma família bacana. Mas não era para ser...


Caras,

Espero que vocês estejam bem. Nós passamos uma noite bem agitada, com muitos pensamentos passando pela cabeça.

Infelizmente não poderemos ficar com o seu bebê. Não estamos prontos para assumir esse compromisso ainda. Mas queremos o bem dele e sei que existem ótimas famílias que podem criá-lo com muito carinho e amor. Ele fará a alegria, com certeza, de uma família muito especial que está pronta para recebê-lo.

Por favor, basta procurar a 1ª Vara da Infância e Juventude na Praça 11. O endereço é  Praça Onze de Junho 403. Cidade Nova (ao lado do Sambódromo). Tel.: 2503-6300 (Central). Horário: De 09:00H às 18:30H. Outros telefones: tel. 2503-6320 – 2503-6318 – 2503-6319. Serviço de proteção social (plantão): Telefone: 2503-6300

Chegando lá, um assistente social vai cuidar do caso e encaminhar o bebê para o primeiro casal que está na fila de espera. Será um casal já pronto e habilitado para a adoção.

É tudo fácil, rápido, seguro. E principalmente: É O JEITO CERTO DE SE FAZER ISSO.

Esse casal vai ficar muito feliz com essa oportunidade e a criança vai estar em mãos seguras.

Deixamos com vocês o dinheiro para a despesa com o transporte até lá. 

NA TENHAM MEDO. VAI DAR TUDO CERTO. Várias mulheres já encaminharam seus bebês dessa forma. A criança vai diretamente para um casal, sem passar por um orfanato. Vocês serão tratadas com respeito e todos vão respeitar a sua decisão.

Nós pensamos bem e entendemos que essa é a melhor forma de adoção. Não quisemos furar a fila de ninguém. O bebê deve ser encaminhado ao lugar certo para chegar à família certa na hora certa.

Fiquem com Deus e que dê tudo certo na vida de vocês.

Um abraço do casal que esteve ontem com vocês.


(relendo essa carta fico mais boba ainda pensando como meus filhos são perfeitos para mim, como sou feliz por esse encontro, como veio tudo na hora certa.... OBRIGADA MEU DEUS!!!)


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